O inferno são os outros

Just another WordPress.com weblog

(Parte II) junho 12, 2009

III.

- Você deu seu telefone pra ele?

Eram quatro horas do dia seguinte. Justine já estava em casa. Honrando as origens do próprio nome, saíra do apartamento de Artur de fininho, sem que ele percebesse. Agora falava no telefone com uma das amigas que a arrastara para a boate.

- Dei, mas ele não vai ligar, tenho certeza. – Justine respondeu, despreocupada.

Do outro lado da linha, a amiga soltou um suspiro.

- Você acha mesmo? Que pena…

- Pena, por quê?! Por favor, Júlia, nós não temos nada em comum! Ele não faz absolutamente o meu tipo! E ele me disse que eu não faço o dele também!

- Que horror! Como ele pôde dizer uma coisa dessas?!

- Nós fomos sinceros, Júlia. E foi ótimo. Eu contei tudo pra ele, sobre o Fernando e tal. E ele também me contou que estava lá aquela noite porque os amigos o obrigaram, porque ele também acabou de terminar um namoro. E eu fiquei olhando pra ele, e ele pra mim, exatamente porque nós somos o oposto dos nossos falecidos.

Júlia, inconformada com tanta sinceridade, soltou um muxoxo de desaprovação.

- Mas que é estranho é…

- Não é não! Sabe o que é estranho? – Justine falou, em tom de mistério – A química que rolou. Isso sim, foi muito inesperado… Foi uma atração por causa da “desatração” que um causou no outro!

- Você é louca Justine! Mas mesmo assim, estou feliz que você tenha saído com a gente ontem. E que bom que se divertiu. Olha, eu preciso desligar agora, mas se o Odnanref ligar, me avisa.

- Odna o quê?! Quê isso, Júlia?!

- É Fernando ao contrario ué! Você mesma não disse que ele é o oposto do Fernando?

- Nossa, como você é desocupada Júlia… Está bem, eu aviso, mas ele não vai ligar.

Do outro lado da linha Júlia se despediu e desligou. Justine ainda ficou um tempo sentada na poltrona, pensando alto.

- A química foi inegável… e estranha.

Depois deu uma risadinha e levantou-se. Alguns minutos mais tarde, se pegou pensando o que Fernando (o verdadeiro) estaria fazendo àquela hora.

 

IV.

Então aconteceu uma coisa que seria conhecida como DDDDD, ou dois dias depois daquele domingo. O celular de Justine tocou, quando ela estava no elevador, esperando chegar ao 11º andar.

Ela começou a revirar dentro da bolsa enorme, (muito bonita, muito elegante) mas sem um único bolso separado para celular. Quando finalmente encontrou, o celular já se esgoelava num nível ensurdecedor.

- Alô?

Do outro lado da linha a voz estava claramente angustiada.

- Ahm… Justine? – e tímida também (mas era um homem).

- Quem é?

- É o Artur.

Justine poderia ter imediatamente perguntado “Que Artur?!”, mas não conseguiu. Teria sido uma mentira como outra qualquer, uma dessas que todos nós conseguimos sem nenhum esforço (especialmente porque a pessoa que vamos enganar não está frente a frente conosco), mas ela simplesmente não conseguiu. Ficou desarmada e um pouco preocupada também. Por que Artur estava ligando pra ela? Franziu a testa, agoniada, pensando se Artur não seria daquele tipo chato. O chato que você não quer que ligue e liga (porque existe também o chato que você quer que ligue e não liga! E esse é muito pior que o primeiro!).

- Justine?

- Ah! Oi Artur! Tudo bem?

O elevador parou e ela empurrou a porta com o ombro. Começou a revirar tudo dentro da bolsa, atrás da chave. E ao mesmo tempo tentava prestar atenção ao que Artur queria.

- Justine eu andei pensando e… bom, é melhor se nós encontrarmos, dá pra falar melhor. Tudo bem por você?

- Encontrar com você Artur? – ela não conseguia parar de repetir seu nome – Eu não sei Artur, não acho uma boa idéia.

- Escuta Justine, – ele também não parava de dizer o dele em cada frase que começava – me encontre só pra tomar um café. Eu só queria falar uma coisinha com você, depois, dependendo, eu vou embora. Pra sempre.

“Pra sempre?” Justine pensou, achando aquilo muito dramático “Ah, Artur, onde eu estou me metendo?!”. Ela balançou a cabeça negativamente, mas numa careta, disse o contrario do que queria.

- Claro. Um café, tudo bem.

- Ótimo. Você pode hoje?

“Hoje?! Bem, vamos acabar logo com o seu sofrimento Artur, se é assim que você quer”.

- Tudo bem. Só se for agora. – ela respondeu, não acreditando em seu tom de voz confiante.

Eles combinaram o lugar e logo depois desligaram. No prédio de cinco andares do Botafogo, Artur desligou seu celular e foi até a janela, pensar melhor no que ia fazer dali há quinze minutos. No segundo seguinte já tinha abandonado a janela e ia em direção a porta.

 

2 Responses to “(Parte II)”

  1. encontroedesencontros Diz:

    e agora? e o café?
    concordo com ela, que drama!
    se fosse o contrario e depois de um tempo, aposto que seria gravidez…
    espero o resto amiga!

  2. Táscia Diz:

    Nossa, que curiosidade!!!! Estou ansiosa pela continuação…


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

 
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.