O inferno são os outros

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V. Artur entrou num bar… agosto 1, 2009

Filed under: Terceira parte — andrearomao @ 2:07 am

V.

…em uma esquina do Flamengo (Claro, Justine havia pensado, se ele quer encontrar comigo, que seja no meu bairro). Ele trazia as mãos afundadas no bolso da calça, o que mostrava seu nervosismo, e mais nervoso ainda ele ficou quando viu que Justine já estava lá.

- Justine. – ele disse, sentindo-se subitamente sem graça, como se toda a iniciativa nem tivesse sido dele.

Ela se levantou e meio sem jeito, se cumprimentaram com dois beijos na bochecha.

- Daqui a pouco eu tenho que ir Artur, tenho um trabalho da faculdade… – Justine começou a falar, mas logo em seguida achando aquilo muito mal educado.

- Claro. Eu também tenho aula hoje ainda.

Um silêncio constrangedor caiu sobre os dois como um piano de cauda.

- Então, Artur…

- Ah, claro, Justine! Bem, eu passei esses últimos dois dias pensando, sabe? E eu sei que pode parecer loucura, mas… – e sua idéia parecia muito melhor dois dias atrás.

Justine apoiou a cabeça nas duas mãozinhas delicadas e pequenas. Seus olhos redondos e escuros estavam cravados em Artur como na noite da boate. Ele também a encarou, e aquilo lhe deu coragem pra falar.

- Eu acho que nós podíamos namorar.

E pronto.

Justine baixou os olhos, pronta pra pegar sua bolsa e sair. Artur lhe disse que depois que falasse ia embora pra sempre, então que fosse. Aquilo era loucura e ela não queria ouvir mais nenhuma palavra. Até Fernando pareceu um homem mais racional que Artur naquele momento.

- Artur, eu preciso mesmo ir.

- Justine, espere! – ele pegou em seu braço – Faz sentido Justine!

Ela olhou pra ele, envergonhada do que ia dizer.

- Artur eu não… eu não gosto de você.

- Exatamente! É disso que eu estou falando! Por favor Justine, eu fiquei pensando sobre isso durante 48 horas, me deixe pelo menos falar.

Ele continuava segurando seu braço. Se ela quisesse podia ter puxado com força, podia ter gritado, não precisa ficar lá, amarrada a ele. Mas ela voltou a se sentar. Ele sorriu e voltou a falar, animado.

- Preste atenção, Justine. Você não gosta de mim, eu não gosto de você. Nós não fazemos o tipo um do outro, mas ao mesmo tempo temos uma química incrível, você não pode negar! Nós nos damos bem juntos, conversamos como velhos amigos naquele sábado.

- Nós estávamos bêbados, Artur.

- Não, não estávamos. E tem mais: você não agüenta mais relacionamentos destruídos, eu também não! Você não suporta mais a dor, você não suportar mais amar Justine!

Ele ganhara de novo sua atenção.

- Se nós começássemos a namorar, o que poderia acontecer? Não dar certo, na pior das hipóteses. Aí, nós terminaríamos. Mas o melhor: sem sofrimento, sem culpa, sem amor.

- Mas qual o objetivo de começarmos a namorar, se vamos terminar logo depois?

- O objetivo é passarmos um tempo legal juntos, que talvez sirva para nos ajudar a esquecer antigos companheiros. E talvez nós não terminemos nunca, talvez esse seja o relacionamento do futuro. E eu não sou nenhum psicopata nem tenho intenções de te matar, meus amigos se responsabilizam por mim, se quiser ligar pra eles.

Ele jogou o celular em cima da mesa, que rolou até a mão de Justine. Ela o rodou de volta pra Artur.

- Então, o que me diz? – ele perguntou.

Ela ficou em silêncio, mas parecia estar considerando, ou se preparando para fugir. Artur não tirava os olhos dela, aqueles olhos absurdamente castanhos, tão diferentes dos olhos de Fernando… Fernando! E já estava ela pensando nele de novo. Não, chega desse sofrimento, chega de Fernando. Artur tinha razão.

- Isso provavelmente é a maior loucura que eu vou fazer em toda minha vida mesmo, então…

- Você topa?

Ela estendeu a mão para ele.

- Topo.

Ele se levantou e pegou em sua mão, aproveitando pra puxar todo seu braço, trazendo-a pra junto dele, e eles deram seu primeiro beijo de namorados.

- Mas algo me diz que ainda vamos nos arrepender muito no futuro. – Justine disse balançando a cabeça.

 

 
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