Eu estava caminhando pelo parque de minha cidade, um belo parque circular, com gramados floridos e mães passeando com carrinhos de bebê. É um lugar realmente agradável, e naquele dia o sol iluminava meu caminho tornando aquela manhã deliciosa. Tenho sempre o costume de passear no parque, nas manhãs de sol.
Depois de algumas voltas, me sentindo cansado, resolvi sentar num banco e ficar observando o movimento.
E foi então que em meio a uma protuberância de carrinhos, crianças, babás e mães, eu a vi. Ela era uma menina-moça, que não deveria ter mais de dezoito anos. Usava um vestido rodado sedoso, e eu, que nunca entendi nada de vestidos, me senti fascinado por aquele. Tinha um laço atrás, no pescoço. Primeiro ela estava de costas, então quando ficou de frente para mim, cheguei a levar a mão ao coração. Era simplesmente a visão mais linda nesse mundo.
Porem a visão logo sumiu, ela havia voltado a ficar de costas e foi se afastando, quase como se flutuasse, como um anjo. Quando ela desapareceu por completo senti um aperto muito grande no peito. Precisava vê-la de novo.
Estava apaixonado.
Levantei-me decidido e segui a mesma direção que ela. Como se houvesse deixado um rastro de perfume pelo caminho, consegui encontrá-la. Ela pegando um táxi, acompanhada de um casal, provavelmente, seus pais.
Peguei outro táxi e segui-os até o centro da cidade, aonde eles entraram num restaurante elegante. Era perto da hora do almoço e eu estava faminto, mas não tinha dinheiro para segui-los até lá dentro. Desci do táxi e fiquei encostado na porta do restaurante, esperando que eles saíssem.
Uma hora depois eles saíram e o pai despediu-se da mulher e de meu lindo anjo. Elas foram caminhando pelo centro até entrarem numa loja de roupa feminina. Novamente pus-me a porta da loja, esperando que elas saíssem.
Depois de deixarem a loja elas tomaram outro táxi, e no táxi detrás, lá estava eu, louco, inconsciente, bêbado de amor por aquela jovem. Seguimos até nos afastarmos do centro, chegando num bairro residencial. Elas entraram numa casa e lá ficaram.
Eu aproveitei para descansar, sentado do outro lado da rua, num banquinho duro e incômodo. Tão implacável havia sido minha perseguição, que eu rapidamente adormeci, sentado.
Só fui acordar sobressaltado com o barulho de uma buzina. Já estava escuro, eu estava de vigília já fazia muitas horas. A buzina era de um carro parado em frente a suposta casa de minha amada. Seu suposto pai estava no volante. Logo a porta da frente se abriu e lá veio aquela visão, ainda mais linda, arrumada para uma festa, seguida da mãe. Entraram no carro e partiram.
Ainda sonolento demorei a perceber que perdera o rastro de minha querida. Mas a sorte não me abandonara, um ônibus vinha passando e eu quase me joguei na frente dele, para que parasse, e de fato parou. Fui dependurado no motorista, tentando não perder o carro de vista. Quando o carro seguiu uma rua e o ônibus virou em outra direção, saltei o mais rápido possível. Terminei de seguir o carro a pé mesmo, apenas com a força do amor.
Não demorou muito e o carro parou em frente a uma casa grande e iluminada, onde estava acontecendo uma espécie de baile.
Estava decidido a entrar, mesmo que fosse só para convidados. Mas talvez tenha sido aí o meu erro, pois na afobação de não perder de vista aquela imagem angelical, adiantei-me muito e aproximei-me demais. Pisei em seu pé pequeno e delicado, quando estávamos debaixo do portal de entrada da casa. Ela rapidamente virou-se para trás, esperando um pedido de desculpas.
- Estou completamente apaixonado por você! – as palavras saltaram de minha boca.
Ela me olhou de cima a baixo, como um bichinho assustado.
- Mas… O senhor deve ter oitenta anos!
- Setenta e cinco! – corrigi indignado, mas em vão.
Fim.