A voz de Justine do outro lado da linha parecia tão cheia de entusiasmo que, por alguns segundos, Júlia acreditou que a amiga iria dizer alguma grande novidade a respeito de Lucêncio.
Lucêncio, a despeito do nome horrível, era lindo. E era o primo de Justine, com quem Júlia ficara uma vez, em uma festa. Isso já fazia dois meses, ou se alguém perguntasse a própria Júlia, dois meses, três semanas e cinco dias (e vinte horas e quarenta e sete minutos, embora essa parte ela guardasse para si mesma. Ninguém precisa ser chama de louca ou neurótica só por contar horas e minutos…). Há sempre um “je ne sais quoi” em corações solitários, que fazem essas pessoas parecerem ainda mais patéticas…
De qualquer maneira, era bastante tempo. Mas nunca tempo o bastante para que Lucêncio resolvesse pedir a Justine o telefone de Júlia. Muito embora o mínimo lado racional de Júlia soubesse que o que quer fosse que Justine tivesse a dizer, era sobre ela própria. Ninguém telefona para uma amiga, às duas da manhã, há não ser que se trate de assuntos que diz respeito a si mesma. Qualquer outra coisa, pode ficar para o horário comercial.
- O que foi, Justine? – Júlia perguntou, o coração apertado.
- Eu estou namorando!
- O quê?! – o tom de indignação não poderia ter sido mais pronunciado – Você voltou com o Fernando?!
- Não! Eu estou namorando o Artur!
- Mas meu Deus! Quem é Artur?
- O cara do sábado!
- Você está namorando um cara que você conheceu sábado? Justine, você está bêbada?!
- O Ordnanfef… como você o chamou mesmo? – rapidamente Justine rabiscou o nome Fernando num bloquinho e leu ao contrário – Odnanref! Eu estou namorando o Odnanref!
- Justine… acho bom você explicar essa história melhor.
Justine explodiu em gargalhadas, mas logo começou a explicar. Contou tudo, com detalhes. Desde a ligação no elevador até o primeiro beijo no bar. Quando terminou, esperou do outro lado da linha a reação de Júlia. Mas tudo que ouviu foi um silêncio constrangedor. Ela mordeu os lábios, pensando que Júlia poderia ter morrido do outro lado da linha ao ouvir uma coisa tão estapafúrdia, mas finalmente a voz da amiga soou, como um lamento.
- Mas, Justine, como você pode namorar um cara que você nem conhece?
- Mas nós estamos nos conhecendo agora. Que mal há nisso?
- Ele pode ser um psicopata. E se ele te matar?
- Júlia! Fernando poderia ter sido um piscopata… não podemos prever esse tipo de coisa. Além do mais, naquele sábado você ficou com um amigo dele, não ficou? Você pode pedir a ficha completa pra ele.
- E vou pedir mesmo! Aliás… isso é uma ótima desculpa pra eu ligar pra ele!
- Hum… pensando bem, eu estava brincando. Não faz isso não, Júlia.
Nesse momento, Justine ouviu do outro lado da linha um estridente barulho de sinos badalando. Era o celular de Júlia, avisando que uma mensagem chegara.
- Mensagem de quem? – Justine perguntou, arqueando as sobrancelhas.
Do outro lado, Júlia deu um grito estridente, como uma menina de quinze anos. Justine, que conhecia bem aquele tipo de manifestação da amiga, balançou a cabeça, tristemente.
- Não me diga que é mensagem do…
- Do Fred! Perguntando se eu to de bobeira!
- Não responde, Júlia!
- Já respondi! Disse que sim!
Não demorou muito para o Fred responder. E Júlia deu um novo grito, ainda mais estridente, baixando sua racionalidade de quinze para doze anos.
- Ele diz que vai passar aqui em casa pra me pegar! Ai amiga, você namorando um desconhecido, eu saindo com o Fred! Hoje é nosso dia de sorte!
- Júlia! Você não vai sair com ele, vai?!
- E por que não?
- Porque são duas horas da manhã, Júlia! E porque o Frederico nunca te procura em um horário decente, aliás, ele nunca te procura! Por favor, Júlia, um cara que te liga a essa hora, só pode querer uma coisa com você! E não é um pedido casamento!
- Bom, é melhor um encontro meia-boca do que passar a madrugada sozinha…
- Eu não te entendo, Júlia! Você é inteligente, bonita, legal e ainda por cima, loira! Por que você tem que se comportar assim?
- Assim como?
- Como uma piranha! – Justine exclamou, irritada, se arrependendo logo em seguida.
Seu arrependimento foi confirmado quando o telefone do outro lado da linha foi desligado com violência.
Justine deu um suspiro e se ajeitou na poltrona, pensando que aquele era o momento que ela ligaria para seu namorado e contaria de sua discussão com Júlia. Mas será que Artur estava acordado? Provavelmente não. Será que ele se importava de ser acordado? Ela teria que descobrir todos esses pequenos detalhes, mais cedo ou mais tarde. E com um sorriso, Justine voltou a pegar o telefone e discou o número de seu namorado (olhando na agenda do celular, porque ela ainda não havia decorado).