Clarinha e Fred baixaram a mão em cima do Ás de Copas.
Impossível saber quem havia sido o primeiro. Como duas boas crianças saudavelmente competitivas e enérgicas, logo estavam rolando pelo chão, cada um defendendo sua própria vitória.
Não é preciso dizer que o jogo de cartas era Tapão.
Quando a briga foi separada pelas respectivas babás, Frederico chorava de raiva. Clarinha reprimiu um sorriso. Não por ver o amigo chorando, mas porque logo segundos depois da briga já enxergava o curto processo infantil de pedido de desculpas e a continuação da brincadeira.
“Que besteira tudo isso, se daqui a pouco vamos estar rindo dessa briga boba…”
Achando-se muito madura, do alto de seus oito anos, ao ter chegado a tal conclusão, resolveu que Fred é quem deveria tomar a iniciativa.
As desculpas, no entanto, não vieram tão cedo quanto Clarinha imaginara. Depois da briga cada um passou o resto dia trancado em seus respectivos apartamentos e não se viram até o dia seguinte.
Na hora de ir para a escola, descendo de mãos dadas com a mãe, Clarinha topou com Fred na portaria, esperando pela van que o levava para seu colégio. Ele virou a cara.
Aquilo chocou a menina. Como Fred podia ser tão imaturo? Pois bem, ela era infinitamente superior a ele e isso era um fato. Clarinha decidiu, empinando o nariz, ver até onde Fred agüentaria. Ela é que não iria ceder…
“Ainda mais sabendo que assim que ele pedir desculpas, vamos começar a rir de tudo isso”
Passaram-se alguns dias. Fred ignorava Clarinha. Clarinha tampouco iria dar o primeiro passo.
Passaram-se meses. Chegou o fim do ano e a família de Fred mudou-se para outro prédio. Ele ganhara um irmãozinho e o apartamento de dois quartos se tornara pequenos demais.
No dia da mudança, Clarinha ficou assistindo o caminhão partir, pela janela. Até o último minuto esperou Fred parar de dar-lhe as costas e pedir desculpas. Não aconteceu.
“Quando ele admitir que estava errado, vamos rir tanto!”
Passaram-se alguns anos. Clarinha já tinha treze anos, já usava salto alto e tinha um namoradinho na escola. Sabia que Fred ainda estudava no mesmo colégio de antes. De vez em quando se esbarravam em alguma esquina e ele desviava o olhar.
Chegou o ano do vestibular. Nesse meio tempo, Clarinha vira Fred cinco ou seis vezes. Sabia que ele ia prestar Direito. O que ela achou muito irônico.
Seu primo era amigo do irmão mais novo de Fred. De vez em quando ela recontava para ele a história do dia do Tapão, sempre acrescentando ao final:
“No dia que o Fred vier me pedir perdão, eu vou achar aquela briga muito engraçada!”
A certeza de Clarinha de que Fred pediria desculpas estava toda baseada no fato mais irrefutável de todos: aquela havia sido uma briga de crianças, logo eles seriam adultos e adultos não brigam por besteiras da infância.
Clarinha entrou na faculdade de Letras, ficou dois anos e desistiu. Mudou para Gastronomia. Foi até o fim. Formou-se, conseguiu emprego em um restaurante renomado. Casou-se com um médico alergista. Teve duas filhas. Passava as férias na casa de praia em Maringá e o ano novo com a família do marido, em Joinvile.
Com o passar dos anos ela ia tendo cada vez menos noticias de Fred. Depois que seu primo foi fazer doutorado nos Estados Unidos e acabou ficando de vez, ela nunca mais soube dele.
Clarinha nunca deixara de pensar em Fred e na briga. A última vez que mencionou o assunto com o marido, havia sido no aniversário de quinze anos da filha mais velha.
“Fred podia estar aqui. Podia ter sido o padrinho da Gabi, mas ele sempre foi tão cabeça dura! E nós podíamos estar rindo!”
Anos depois quando a caçula anunciou que ia prestar vestibular para Direito, Clarinha aprovou a escolha da filha, deu-lhe um beijo e pediu licença, indo se trancar no banheiro. Lá dentro, encostou-se na parede, ao lado da pia, e foi deslizando devagarinho até o chão.
Porque ela já era adulta. E Fred também. E nada fora esquecido e eles não tinham nenhum razão para olhar para trás e rir.
E então Clarinha chorou.