(Parte I)
I.
Estava tudo acabado. Definitivamente. E dessa vez era sem volta. Não seria como das outras três vezes em que Justine terminara com ele e depois acabou voltando. Não, dessa vez era diferente, porque dessa vez ele terminara com ela. E ao contrario dela, Fernando não era nenhum sentimental, e como prova disso estava o modo como ele terminara com ela. “Acho que não gosto mais de você” ele havia dito, em meio a um suspiro de cansaço “E afinal, depois de você terminar e voltar comigo umas vintes vezes, nossa relação ficou muito abalada”.
Relação abalada! E desde quando Fernando sabia falar esse tipo de palavra? E desde quando ele sabia o que era uma relação abalada?!
Mas era melhor assim, Justine repetia pra si mesma, entre um soluço e outro. Agora ela nunca mais teria que ficar se preocupando em terminar com Fernando e logo em seguida voltar com ele, seduzida por aqueles cabelos dourados de Apolo ou aqueles olhos verdes cativantes. Porque, sim, Fernando era muito bonito.
Talvez o problema fosse esse. Esses homens bonitos demais. Afinal, o problema de Justine não havia sido só com Fernando, mas com os últimos dois também. Todos lindos, e só. Mas agora mais nada disso importava, ela estava livre, livre da beleza oca de todos os homens do mundo, porque Justine já tinha 22 anos e era hora de crescer e esquecer os homens. Todos eles. E debruçada na janela de seu apartamento no 11º andar, ela olhava a praia do Flamengo, chorando copiosamente por mais um homem que não merecia suas lágrimas. Mas aquela era a última vez, ela dizia, limpando as lágrimas que escorriam pelo canto dos olhos.
Não muito longe dali, num prédio de quatro andares no meio do Botafogo, Artur não se entregava às lágrimas por Isadora. Mesmo porque, não havia motivos pra isso. Claro que não. O que eram quatro anos de namoro jogados pro alto, junto com a lingerie vermelha de Isadora e uma cueca ridícula de coração?! Que, aliás, não era de Artur! O que importava todos os presentes, todos os telefonemas estourando os créditos do celular dele, todas as mensagens desejando um bom-dia, o rocambole de doce-de-leite que ele aprendera a fazer, só pra levá-lo pra ela, quando ela ficou doente?! O que importava tudo isso?! Todas as pequenas surpresas que ele havia feito pra ela, que ela retribuiu com uma única e gigantesca surpresa, de 1,80 deitado na cama dele!
Isadora não merecia suas lágrimas, claro que não. Nem seu coração, nem sua criatividade ou paciência, nem nada. O que ela merecia era seu fígado. “E é isso mesmo que eu vou pedir aos médicos para entregarem a ela, quando eu morrer de cirrose!” Artur pensou, abandonando mais uma garrafa de cerveja vazia, junto com outras seis, amontoadas no sofá.
Enquanto ele se levantava cambaleando, tropeçou na garrafa de vodka vazia pela metade e caiu de joelhos. Gritou de raiva e também porque estava bêbado. Amaldiçoou Isadora e todas as mulheres do mundo. Amaldiçoou o mundo todo. Os homens também, e as crianças e os idosos e os animais. Até os gatos, até seu próprio gato.
Quando conseguiu se levantar, desistiu de pegar outra cerveja e foi se arrastando para o quarto. Jogou-se na cama enojado. A mesma cama em que encontrara Isadora com aquele homem ridiculamente bronzeado.
Isadora, Isadora… Não queria mais pensar nela, e não ia mais pensar. Nem nela, nem em ninguém.
II.
Os dois se conheceram numa boate. Ambos arrastados pelos amigos, que diziam não suportar mais assistir a autodestruição dos dois (mas, que na verdade não suportavam mais as ligações no meio da madrugada, cobertas de choros, e intermináveis “Por quê ele(a) terminou comigo?!”).
Nenhum dos dois grupos de amigos acreditou quando viram os dois se aproximando. A atração foi imediata, quase como dois imãs de sinais contrários. Justine não ficou surpreendida quando Artur veio conversar, ela já estava olhando para ele há muito tempo. Naquela noite ela estava resolvida a só se aproximar de homens que fossem muito diferentes de Fernando e dos dois últimos Fernandos. E Artur era. Ele não era muito alto, quase da altura dela, com cabelos avermelhados, mas não muito e olhos absurdamente castanhos.
Ela sorriu de imediato, ao ver que ele não era nada do que ela procurava num homem. “Ótimo” pensou “uma oportunidade única de ficar com um homem e não me apaixonar imediatamente por ele”.
Artur, mesmo estando de costas, sentiu que havia um olhar cravejado em cima dele. Olhou pra trás se deparando com um par de olhos redondos e escuros. Não era, definitivamente, seu tipo, mas pensando bem, Isadora era seu ideal de mulher perfeita, e tudo terminara da pior maneira possível. Talvez fosse melhor mesmo variar um pouco, e na verdade estava se sentindo bem atraído por aqueles cabelos castanhos curtos.
A conversa fluía bem. Ele sorria o tempo todo, e ela gostou do seu sorriso. Ele tinha um jeito de menino, nem aparentava os 24 anos que tinha. Ele gostou do nome dela, era diferente, era francês. Ela também gostou do dele, desde menina gostava das aventuras do Rei Artur.
- Mas sempre gostei mais do Lancelote. – admitiu – Ele fazia mais meu tipo.
- Tudo bem. – ele respondeu – Nunca gostei mesmo de nomes franceses, sempre preferi os espanhóis.
E quando os dois grupos de amigos se deram conta, eles não estavam mais na boate. Àquela altura já deviam estar chegando ao prédio de cinco andares, no Botafogo…
Isso amiga, junte-se ao roll dos que dizem alguma coisa!
Nossa, eu achei que ia virar uma tragédia grega e ambos iriam se suicidar!
Viu, e desencontros sempre levam a um encontro significativo!
Adorei!
Andrea! Também adorei seu texto!!! Você tem uma ironia muito fina… Fiquei rindo sozinha!
E assim a vida se desenrola… mas eu não duvido que o tempo venha um dia qualquer pra separar também justine e artur… iuehaiuaeae
beijo